Do Colecionismo ao Conhecimento: Como o Gosto por Antiguidades Deu Origem à Arqueologia

Um estudo histórico publicado na Revista Sociedade Científica investiga as raízes do pensamento arqueológico, revelando que práticas aparentemente mundanas, como o colecionismo de objetos raros durante o Renascimento, foram fundamentais para o surgimento da arqueologia como disciplina científica. A pesquisa, conduzida por Jader Reis Monteiro da Universidade NOVA de Lisboa – FCSH, argumenta que uma mudança profunda na forma como a sociedade europeia via o mundo material e a própria mortalidade, impulsionada pela expansão comercial e por uma nova episteme, criou as bases ontológicas e epistemológicas para o estudo sistemático do passado através dos seus vestígios.
Antiguidades: De Relíquias a Objetos de Estudo
A pesquisa, intitulada “Antiquarismo, colecionismo e o surgimento embrionário da arqueologia: uma breve reflexão histórica“, traça a evolução do interesse pelo passado material, partindo dos studioli privativos do século XIV – pequenos estúdios de estudo e contemplação – até aos famosos gabinetes de curiosidades (Wunderkammern) dos séculos XV a XVII. De acordo com o autor, citando historiadores como Philipp Blom e Bruce Trigger, foi nesses espaços que os artefactos começaram a perder o seu estatuto de meras relíquias ou tesouros, passando a ser vistos como objetos passíveis de classificação e estudo, um primeiro passo crucial para uma abordagem científica.
O artigo destaca que este movimento não se limitou à elite. “Antiquários provindos de uma recém formada ‘classe média’, nomeadamente membros do baixo clero, da burguesia e fidalgos, também possuíam suas próprias coleções”, escreve Monteiro, baseando-se em relatos históricos que apontam para a existência de quase mil coleções espalhadas pela Europa. Em Portugal, nomes como André de Resende e Fr. Bernardo de Brito são exemplos desta tendência.
Os Dois Motores da Mudança: Riqueza e uma Nova Visão da MorteMas o que explica que este impulso colecionista tenha florescido precisamente no período moderno? O estudo aponta para dois fatores centrais e interligados.
O primeiro foi material: a expansão comercial e as “grandes navegações” de potências como Portugal e Veneza geraram uma riqueza sem precedentes e trouxeram uma enxurrada de objetos exóticos para a Europa. Esta abundância forneceu os recursos e o acesso a itens necessários para alimentar a cultura do colecionismo.
O segundo fator foi uma profunda mudança espiritual e epistêmica. O artigo argumenta, com base na obra de Philipp Blom, que a Idade Média via a morte como uma transição para o plano espiritual. Já no Renascimento, consolidou-se uma percepção da fugacidade e impermanência de todas as coisas mundanas. A consciência da decadência e da passagem do tempo, simbolizada em pinturas por caveiras e ampulhetas, levou os colecionistas a verem as suas coleções como um legado, um “testamento para as futuras gerações”, numa tentativa de vencer simbolicamente a transitoriedade da vida.
O Legado Epistemológico: O Essencialismo e o Foco no ArtefactoEsta nova relação com o objeto, porém, tinha suas limitações. O estudo conclui que a prática antiquária inicial estabeleceu uma postura essencialista perante a cultura material. O foco estava na descrição, classificação e apreciação estética dos artefactos individuais, muitas vezes negligenciando o seu contexto de origem.
“A concorrência movida pelos vestígios esteticamente relevantes ou portadores de registros escritos é notória”, observa o autor, citando o arqueólogo português Carlos Fabião. Esta predileção por objetos “excepcionais” ou “únicos” em detrimento de outros vestígios menos glamorosos, mas potencialmente mais informativos, moldou a epistemologia da arqueologia nas suas fases iniciais.
Monteiro ressalta, contudo, citando Astolfo Araújo, que a classificação morfológica não é inerentemente negativa, dependendo das questões de pesquisa. No entanto, a escolha inicial do objeto de estudo – o artefacto isolado – e o objetivo – a criação de um legado e a satisfação de uma curiosidade estética – refletiram-se diretamente no tipo de conhecimento produzido.
Considerações Finais e Relevância AtualEm suas considerações finais, o estudo sublinha que, apesar das limitações, foi precisamente esta virada ontológica e epistemológica – que transformou objetos do passado em evidências históricas sistematicamente colecionadas e classificadas – que lançou as bases para a arqueologia se tornar um campo independente do conhecimento. As tipologias e o foco no artefacto, características desse período embrionário, são ainda hoje influências perceptíveis na disciplina, demonstrando o peso da herança histórica na prática científica contemporânea.
Autores e Instituições
Jader Reis Monteiro
Filiação: Universidade NOVA de Lisboa – Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH), Lisboa, Portugal.
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