Pesquisa na Paraíba Revela Pressão Humana sobre Manguezal Vital para o Litoral Nordestino

Um estudo científico publicado na Revista Sociedade Científica detalha a “assinatura energética” do manguezal do Rio Gramame, no Conde (PB), identificando a pressão antrópica – como a retirada de água doce para abastecimento público e a degradação do entorno – como o principal fator de estresse para esse ecossistema crucial. A pesquisa, conduzida por especialistas da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), alerta que a combinação dessas ações humanas com os efeitos das mudanças climáticas pode levar ao declínio da floresta de mangue, com morte de árvores e possível desaparecimento de espécies menos tolerantes.
O Que Define um Manguezal: A “Receita” de Energia
O conceito de “assinatura energética”, proposto pelo ecólogo Eugene Odum, refere-se ao conjunto de energias externas que moldam e sustentam um ecossistema. No caso dos manguezais, fatores como radiação solar, temperatura, chuvas, nutrientes do solo, marés e o aporte de água doce dos rios atuam em conjunto. Quando em equilíbrio, essas energias permitem um desenvolvimento estrutural robusto e alta produtividade. A pesquisa buscou justamente entender como essa “receita” se manifesta no estuário do Rio Gramame e qual fator está drenando a energia do sistema.
O Retrato do Manguezal do GramameOs pesquisadores constataram que o manguezal paraibano possui uma vegetação arbórea-arbustiva com clara zonação, onde diferentes espécies se distribuem de acordo com a proximidade com a água. Foram identificadas as três espécies típicas de mangue do Brasil: Rhizophora mangle (a mais abundante, com 814 indivíduos), Laguncularia racemosa (355 indivíduos) e Avicennia schaueriana (251 indivíduos).
A “assinatura energética” local foi quantificada como:
- Insolação: 2.500 horas/ano
- Temperatura Média Anual: 26,5°C
- Precipitação Média Anual: 1.861,86 mm
- Solos: Argilo-arenosos, ricos em matéria orgânica
- Marés: Amplitude máxima de 2,4m
- Vazão do Rio: Perene, porém de baixa vazão
O estudo aponta que o principal “tensor” – fator de estresse que drena energia do ecossistema – é de origem antrópica. Dois aspectos se destacam:
1. Barramento do Rio Gramame: Desde 1990, o rio foi represado para abastecer a cidade de João Pessoa e sua região metropolitana. Isso reduz o fluxo de água doce para o estuário, um componente vital da assinatura energética. A água doce é essencial para equilibrar a salinidade trazida pelas marés. Sua redução compromete a zonação das espécies e pode levar à morte de árvores, especialmente em períodos de seca.
2. Pressão do Entorno: Atividades como expansão urbana, agricultura e carcinicultura (criação de camarões) no entorno do manguezal causam degradação, assoreamento do rio e alterações na drenagem natural, impactando diretamente a saúde do ecossistema.
Considerações Finais e um Futuro Sob AmeaçaO artigo conclui que o manguezal do Gramame já sofre os efeitos da ação humana. O futuro, segundo os pesquisadores, é preocupante. Projeções de mudanças climáticas para o Nordeste brasileiro preveem a diminuição das chuvas e o aumento do nível médio do mar. Essa combinação exercerá uma pressão negativa ainda maior sobre o estuário, com redução adicional da água doce e aumento da salinidade, podendo levar a impactos severos na vegetação, incluindo a mortalidade de espécies menos tolerantes.
A pesquisa serve como um alerta para a necessidade de gestão e preservação, destacando a vulnerabilidade deste ecossistema costeiro diante do desenvolvimento urbano e das mudanças climáticas.
Sobre os Pesquisadores
O estudo foi conduzido por:
- Ma. Maíra Suênia Cavalcante de Souza – Universidade Federal de Campina Grande (UFCG)
- Dra. Janaína Barbosa da Silva – Universidade Federal de Campina Grande (UFCG)
- Dra. Débora Coelho De Moura – Universidade Federal de Campina Grande (UFCG)
Publicação na Revista Sociedade Científica
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