Criação Ilegal de Animais Silvestres Persiste no Acre, Revela Estudo Científico

Um estudo científico realizado na cidade de Rio Branco, no Acre, revelou que a prática de manter animais silvestres como animais de estimação ainda é uma realidade, movida mais por fatores culturais do que por comércio organizado. A pesquisa, publicada na Revista Sociedade Científica, identificou que aves são os animais mais comumente mantidos de forma ilegal em residências urbanas, sendo obtidos principalmente como presentes ou através de compras discretas. O trabalho, conduzido por pesquisadores de instituições acreanas e paranaenses, entrevistou 1.700 famílias e aponta a necessidade de conscientização contínua e fiscalização rigorosa para proteger a biodiversidade amazônica.
Perfil dos Criadores e Espécies Mais Mantidas
A pesquisa, que coletou dados entre fevereiro e setembro de 2014, descobriu que 3,35% das famílias entrevistadas (57 domicílios) mantinham animais silvestres como pets. No total, 74 animais foram registrados, pertencentes a três classes: Répteis, Aves e Mamíferos. As aves foram, de longe, o grupo mais prevalente, representando a grande maioria dos indivíduos. Entre as espécies identificadas estão o papagaio (Amazona ochrocephala), o periquito (Aratinga weddellii) e o curió (Sporophila angolensis). Apenas dois curiós possuíam registro no IBAMA, indicando que a esmagadora maioria da criação é ilegal.
Presentes, Compras e Captura: As Vias da Aquisição Ilegal
O estudo investigou como esses animais chegam às residências. A principal forma de aquisição foi através de presentes, representando 68,9% dos casos. Muitos entrevistados relataram receber os animais de amigos ou parentes, muitas vezes sem conhecimento da origem ilegal. A compra foi o segundo método mais comum (18,9%), embora os pesquisadores tenham observado que, diferentemente de outros estados, não há grandes feiras livres dedicadas a esse comércio em Rio Branco. A atividade é discreta, movimentada por criadores em pequena escala ou por encomendas específicas. A captura direta na floresta foi o método menos reportado (12,2%).
Fatores Socioeconômicos: Cultura e Renda Influenciam Mais que Idade ou Escolaridade
Um dos achados mais significativos da pesquisa foi a relação entre a criação de animais silvestres e o perfil socioeconômico dos entrevistados. Ao contrário do que se poderia supor, a idade e o nível de escolaridade dos criadores não apresentaram uma correlação estatisticamente significativa com a prática. No entanto, a renda familiar sim. Famílias com maior poder aquisitivo (acima de seis salários mínimos na época) mostraram uma probabilidade maior de manter animais silvestres. Os pesquisadores associam isso a um fenômeno cultural, ligado ao intenso êxodo rural no Acre nas últimas décadas, onde populações com conhecimento empírico da floresta levam seus hábitos para a área urbana.
Implicações para a Conservação e Caminhos Futuros
Os pesquisadores enfatizam que, embora o percentual de famílias criando animais silvestres seja baixo, a prática representa uma ameaça significativa à biodiversidade local. A retirada de animais, especialmente aves como os papagaios, de seu habitat natural interfere em seus ciclos reprodutivos e pode acelerar o processo de extinção de espécies já ameaçadas. O estudo conclui que é crucial combinar esforços de fiscalização com campanhas de educação ambiental que expliquem os impactos negativos dessa prática, indo além da simples informação sobre sua ilegalidade. A conscientização deve focar em desconstruir a crença cultural de que é benéfico ou inofensivo manter um animal silvestre em cativeiro.
Destaques da Pesquisa
- Baixa Prevalência, Alto Impacto: Apesar de apenas 3,35% das famílias criarem animais silvestres, a prática é uma ameaça à biodiversidade amazônica.
- Cultura vs. Comércio: Fatores culturais são um motor mais forte para a criação do que o comércio organizado.
- Renda é um Fator: Maior renda familiar está correlacionada com uma maior probabilidade de criar animais silvestres.
- Fiscalização e Educação: Os autores defendem a combinação de monitoramento rigoroso e campanhas de conscientização contínuas.
Sobre os Autores do Estudo
O artigo “Wild Animals as Pets in Rio Branco, Acre, Brazil” foi desenvolvido por:
- Camila de Lima Faustino – Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Acre (IFAC), Rio Branco, Brasil.
- Felipe do Nascimento Costa – União Educacional do Norte (UNINORTE), Rio Branco, Brasil.
- Louise Cristina Gomes – Pós-Graduação em Biologia Comparada, Universidade Estadual de Maringá, Brasil.
- Jocinette Bessa Chaves – União Educacional do Norte (UNINORTE), Rio Branco, Brasil.
Publicação na Revista Sociedade Científica
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Acesso ao Estudo Original e Informações para Autores
O artigo original completo “Wild Animals as Pets in Rio Branco, Acre, Brazil” está disponível para acesso e download através do seguinte link: https://show.scientificsociety.net/2023/10/wild-animals-as-pets-in-rio-branco-acre-brazil/.
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