Estudo Revela Desequilíbrio na Formação de Professores de Biologia no Espírito Santo

Um estudo publicado na Revista Sociedade Científica analisou os Projetos Pedagógicos de Curso (PPCs) das licenciaturas em Ciências Biológicas das instituições federais do Espírito Santo e revelou um significativo desequilíbrio curricular. A pesquisa, conduzida por pesquisadores da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), identificou que as disciplinas específicas da área biológica predominam sobre as disciplinas pedagógicas, o que pode impactar a qualidade da formação docente.
O trabalho, intitulado “Análise dos Projetos Pedagógicos de Curso das Licenciaturas em Ciências Biológicas das Instituições Federais do Espírito Santo“, foi publicado no volume 8, número 1 da edição atual de 2025 da revista científica.
Metodologia e Abrangência da PesquisaOs pesquisadores realizaram uma análise documental qualitativa dos PPCs dos cursos de licenciatura em Ciências Biológicas ofertados presencialmente pela UFES (campis de Alegre, Vitória e São Mateus) e pelo Instituto Federal do Espírito Santo (IFES), campis de Alegre e Santa Tereza. O estudo focou na distribuição da carga horária entre disciplinas obrigatórias e optativas voltadas para o ensino e educação.
Conforme explicam os autores, “o curso de licenciatura em ciências biológicas compreende uma articulação entre dois eixos principais, as disciplinas relacionadas à área das ciências da natureza e as disciplinas da formação pedagógica nos estudos das ciências sociais e humanas”. No entanto, a pesquisa demonstra que esta articulação não ocorre de forma equilibrada.
Resultados Alarmantes: A Hegemonia das Disciplinas EspecíficasOs dados coletados revelam situações preocupantes. No IFES Campus de Alegre, que apresenta a maior carga horária total obrigatória (3.645 horas), são ofertadas apenas 720 horas em disciplinas pedagógicas. Além disso, não há disciplinas optativas voltadas para Educação, o que reduz a capacidade dos futuros professores em articular conhecimentos pedagógicos às demandas contemporâneas do ensino de ciências.
Por outro lado, a UFES campus de Alegre, mesmo com a menor carga horária total obrigatória (2.640 horas), destina 990 horas para disciplinas pedagógicas e de ensino, além de oferecer sete disciplinas optativas na área. Esta configuração possibilita maior contato dos estudantes com teorias e abordagens pedagógicas para o ensino.
Os pesquisadores alertam que “existe o risco dos/as estudantes priorizarem disciplinas voltadas para a formação biológica em detrimento das pedagógicas, reforçando o caráter tecnicista da formação”.
Contexto Histórico e Desafios AtuaisO estudo situa o problema em um contexto histórico mais amplo, citando a pesquisadora Bernardete Gatti, que afirma que somente “no início do século XX que se dá o aparecimento manifesto da preocupação com a formação de professores para o ‘secundário'”. Esta formação surgiu posteriormente ao surgimento das primeiras universidades no país, acrescentando um ano a mais na formação dos bacharéis para obtenção do título de licenciado.
Maria Helena Dias-da-Silva complementa essa análise, afirmando que “a criação dos cursos de licenciatura aparece muito mais como um ônus que os cientistas pagaram para consolidar seus projetos de formação dos bacharéis”. Esta visão histórica ajuda a compreender a persistência do predomínio das disciplinas específicas sobre as pedagógicas.
Impactos na Formação Docente e na Educação BásicaOs autores destacam que o professor de ciências e biologia tem um papel fundamental na construção da responsabilidade socioambiental nos alunos, na alfabetização científica e na emancipação dos estudantes, permitindo-lhes compreender o mundo ao redor e a própria vida.
No entanto, a configuração curricular atual “reforça a concepção de que o domínio do conteúdo científico é suficiente para atuação do professor, atribuindo a formação pedagógica um papel secundário”. Isto resulta em “uma identidade docente demarcada por uma fragmentação entre ser biólogo e ser professor”, dificultando a integração entre teoria e prática no processo de ensino.
Considerações Finais e RecomendaçõesO estudo conclui que os currículos analisados mantêm uma estrutura hierarquizada, com as disciplinas de ciências biológicas ocupando lugar central na formação. Esta configuração perpetua a histórica desvalorização da formação pedagógica nos cursos de licenciatura.
Entre os principais destaques das considerações finais, os pesquisadores apontam:
- Falta de homogeneidade e equilíbrio entre os diferentes eixos formativos
- Predominância das disciplinas específicas sobre as pedagógicas
- Fragilidades na formação quando a prática pedagógica fica concentrada apenas em estágios
- Dificuldade no desenvolvimento progressivo da formação para o exercício da docência
- Necessidade de revisão das políticas curriculares nacionais e institucionais
Os autores enfatizam que a superação desses desafios requer uma revisão das políticas curriculares tanto em nível nacional quanto institucional, visando uma formação mais integrada e equilibrada entre os conhecimentos específicos da área biológica e os saberes pedagógicos essenciais para a prática docente.
Autores da PesquisaO estudo foi desenvolvido por:
- José Ricardo Mariano de Souza – Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), Vitória-ES, Brasil
- Sintia Bruneli Fagundes – Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), Vitória-ES, Brasil
- Wallas de Souza Costa – Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), Vitória-ES, Brasil
- Thiago Andrian Crevelario – Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), Vitória-ES, Brasil
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