Sistema Prisional Brasileiro: Pesquisa Aponta que Cárcere Fortalece Crime Organizado

Um estudo científico publicado na Revista Sociedade Científica analisa criticamente como as condições precárias do sistema penitenciário no Brasil, em vez de cumprirem a função de ressocializar, atuam como centros de recrutamento e fortalecimento de facções criminosas. A pesquisa, intitulada “Ressocialização ou Recrutamento? Uma Análise Crítica do Papel das Prisões na Formação do Crime Organizado no Brasil“, ganha relevância extrema diante de operações de segurança pública, como a recente Operação Contenção no Rio de Janeiro, que evidenciam o poderio e a capilaridade dessas organizações. O artigo, de autoria de pesquisadoras da Afya Faculdades, utiliza a Criminologia Crítica para demonstrar que a superlotação, a ausência de políticas públicas e o domínio de facções transformam as prisões em “escritórios de gestão do crime”.
Da Ressocialização ao Recrutamento: A Falência do Modelo Prisional
A pesquisa, de abordagem qualitativa e exploratória, parte de uma pergunta central: as prisões brasileiras cumprem sua função ressocializadora ou se tornaram espaços de recrutamento? A hipótese confirmada pelos achados do estudo é a de que, devido à precariedade estrutural, à superlotação crônica e ao controle exercido por facções, o cárcere funciona como um ambiente privilegiado para a expansão do crime organizado.
O artigo contrasta o disposto na Constituição Federal de 1988 e na Lei de Execução Penal (Lei nº 7.210/1984) – que estabelecem a ressocialização como objetivo da pena – com a realidade documentada por relatórios de entidades como a Human Rights Watch. Estes apontam para estabelecimentos com até cinco vezes sua capacidade, onde presos são mantidos em condições insalubres, com alimentação de baixa qualidade e sem acesso a programas efetivos de educação, trabalho e saúde.
“A prisão, em vez de ressocializar, reproduz desigualdades e fragiliza ainda mais os indivíduos privados de liberdade”, afirmam as autoras, baseando-se em referenciais teóricos como Eugenio Zaffaroni e Loïc Wacquant. A seletividade penal é apontada como um mecanismo crucial, onde o sistema penal atua preferencialmente sobre jovens, negros e pobres, funcionando mais como um instrumento de controle social do que de justiça.
Crise no Rio e a Conexão com o Sistema Prisional
O estudo encontra eco imediato na recente crise de segurança no Rio de Janeiro, que culminou na Operação Contenção. A ação, motivada por ataques coordenados de facções, ilustra com dramaticidade como as organizações criminosas, muitas vezes gestadas e fortalecidas dentro dos presídios, conseguem paralisar uma metrópole e desafiar o poder do Estado.
A pesquisa das cientistas brasileiras explica esse fenômeno: dentro dos presídios, as facções assumem o controle de espaços, impõem regras e oferecem uma “proteção” que o Estado não garante. Esse processo transforma o cárcere em um hub de recrutamento e expansão de redes criminosas, que depois operam livremente tanto dentro quanto fora dos muros, como visto nos ataques no Rio. A prisão deixa de ser um local de custódia para se tornar um “escritório de gestão do crime organizado”.
Considerações Finais e Caminhos para a Mudança
As considerações finais do artigo são contundentes: confirma-se que o sistema prisional brasileiro falha em sua função ressocializadora e, na prática, alimenta o crime que se propõe a combater. Os ex-presidiários retornam ao convívio social estigmatizados e sem condições mínimas de reinserção, o que amplia o campo de atuação das organizações criminosas e perpetua ciclos de violência.
Para romper essa lógica, o estudo defende uma profunda reformulação do modelo, indo além de medidas paliativas ou meramente repressivas. A adoção de penas alternativas, a criação de programas efetivos de qualificação profissional e educacional intramuros e a implementação de políticas pós-penais robustas são apontadas como essenciais. Iniciativas como o Plano Pena Justa, lançado pelo governo federal em 2025, são vistas como um avanço promissor, mas sua eficácia dependerá de aplicação prática rigorosa e monitoramento contínuo de indicadores como taxas de reincidência e reincorporação social.
O estudo conclui que é necessária uma mudança de paradigma: da centralidade punitiva para um modelo de justiça que privilegie a inclusão social, a prevenção da violência e a efetiva reintegração. Somente assim será possível reduzir a força das facções e aproximar o sistema penal de sua função legítima de promover a pacificação social.
Sobre as Pesquisadoras
- Hevila Alves Cunha – Afya Faculdades, Vitória da Conquista, Brasil.
- Lucianny Santos Freitas – Afya Faculdades, Vitória da Conquista, Brasil.
- Maria Eduarda Pereira Alves – Afya Faculdades, Vitória da Conquista, Brasil.
- Ana Maria Pereira de Souza – Afya Faculdades, Vitória da Conquista, Brasil.
Publicação Científica
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