Perfil epidemiológico e desfecho clínico de pacientes submetidos a tratamento dialítico em unidade de terapia intensiva no Mato Grosso

Autores

  • Tamis Coelho Nunes Hospital de Câncer de Mato Grosso Autor
  • Pamella Dal Bem Hospital de Câncer de Mato Grosso Autor
  • Gilberto Paulo Pereira Franco Hospital de Câncer de Mato Grosso Autor
  • Millena Abe Botof Hospital de Câncer de Mato Grosso Autor
  • Manoella Almeida de Amorim Hospital de Câncer de Mato Grosso Autor
  • José Geraldo do Amaral Hospital de Câncer de Mato Grosso Autor
  • Patrícia Henicka do Amaral Universidade de Cuiabá, Mato Grosso Autor
  • Carlos José Alves Hospital de Câncer de Mato Grosso Autor
  • Renan Name Amaral Hospital de Câncer de Mato Grosso Autor

DOI:

https://doi.org/10.61411/rsc2026129819

Palavras-chave:

Acessibilidade aos Serviços de Saúde; Diálise Renal; Mortalidade Hospitalar; Unidades de Terapia Intensiva.

Resumo

A insuficiência renal aguda (IRA) e a doença renal crônica (DRC) estão associadas a elevada morbimortalidade em Unidades de Terapia Intensiva (UTI). Em estados de grande extensão territorial, como Mato Grosso, desigualdades no acesso à terapia renal substitutiva (TRS) podem influenciar significativamente os desfechos clínicos. Este estudo teve como objetivo avaliar o perfil epidemiológico e os desfechos clínicos de pacientes adultos submetidos à terapia dialítica por IRA ou DRC em UTIs do estado de Mato Grosso entre 2015 e 2024. Trata-se de um estudo observacional, retrospectivo e analítico, realizado com dados do Sistema de Informações Hospitalares do Sistema Único de Saúde (SIH/SUS). Foram incluídos pacientes com 20 anos ou mais submetidos à terapia dialítica em UTI. As variáveis analisadas incluíram características sociodemográficas, clínicas, assistenciais, deslocamento intermunicipal, tempo de permanência e óbito. Realizou-se análise descritiva e bivariada, com cálculo de odds ratio (OR), intervalos de confiança de 95% (IC95%) e nível de significância de 5%. Foram analisados 3.169 pacientes, com idade média de 61,8 anos (DP=16,36), predominância do sexo masculino (58,8%) e de indivíduos não brancos (80,7%). A maioria das internações ocorreu em caráter de urgência/emergência (95,9%). A DRC foi o diagnóstico mais frequente (63,0%) e a mortalidade hospitalar global foi de 34,9%. A IRA apresentou maior mortalidade (38,6%) quando comparada à DRC (33,8%) e às intercorrências dialíticas (14,7%). Pacientes submetidos ao tratamento para IRA apresentaram 1,29 vezes mais chance de óbito (IC95%: 1,11-1,50; p<0,001). A ausência de deslocamento intermunicipal esteve associada à redução de 11% na chance de óbito (OR=0,89; IC95%: 0,81-0,98; p=0,016). Pacientes com permanência superior a oito dias apresentaram menor chance de óbito quando comparados àqueles com internações mais curtas (OR=0,42; IC95%: 0,36-0,49; p<0,001). A ausência de diálise no município de ocorrência esteve associada a menor chance de tratamento para IRA (OR=0,68; IC95%: 0,58-0,79; p<0,001), mas a maior chance de tratamento para DRC (OR=1,48; IC95%: 1,28-1,71; p<0,001). O estudo evidenciou uma demanda expressiva por terapia dialítica em UTI, concentrada em pacientes idosos e submetidos predominantemente a internações de urgência/emergência. A centralização dos serviços e a necessidade de deslocamento intermunicipal mostraram-se relevantes para os desfechos clínicos, particularmente entre pacientes com insuficiência renal aguda. Os resultados reforçam a importância da ampliação do acesso regionalizado à terapia renal substitutiva e do fortalecimento da rede assistencial especializada para redução das desigualdades em saúde.

Referências

Hoste EAJ, Kellum JA, Selby NM, Zarbock A, Palevsky PM, Bagshaw SM, et al. Global epidemiology and outcomes of acute kidney injury. Nat Rev Nephrol. 2018;14(10):607-625. DOI: https://doi.org/10.1038/s41581-018-0052-0

Younes-Ibrahim M, Rocha E, Reis T, Colares VS, Lima EQ, Andrade LDC, et al. Guidelines for hospital nephrology assistance from the Brazilian Society of Nephrology (BSN). J Bras Nefrol. 2025 Jul-Sep;47(3):e20240239. doi: 10.1590/2175-8239-JBN-2024-0239en. DOI: https://doi.org/10.1590/2175-8239-jbn-2024-0239en

Kulkarni AP, Bhosale SJ. Epidemiology and Pathogenesis of Acute Kidney Injury in the Critically Ill Patients. Indian J Crit Care Med. 2020 Apr;24(Suppl 3):S84-S89. DOI: https://doi.org/10.5005/jp-journals-10071-23394

Chawla LS, Eggers PW, Star RA, Kimmel PL. Acute kidney injury and chronic kidney disease as interconnected syndromes. N Engl J Med. 2014;371(1):58-66. DOI: https://doi.org/10.1056/NEJMra1214243

Cruz MG, Dantas JGA, Levi TM, Rocha MS, Souza SP, Boa-Sorte N, et al. Septic versus non-septic acute kidney injury in critically ill patients: characteristics and clinical outcomes. Rev Bras Ter Intensiva. 2014;26(4):384-391. DOI: https://doi.org/10.5935/0103-507X.20140059

Gautam SC, Lim J, Jaar BG. Complications Associated with Continuous RRT. Kidney360. 2022 Sep 12;3(11):1980-1990. doi: 10.34067/KID.0000792022. DOI: https://doi.org/10.34067/KID.0000792022

Schefold JC, Filippatos G, Hasenfuss G, Anker SD, von Haehling S. Heart failure and kidney dysfunction. Nat Rev Nephrol. 2016;12(10):610-623. DOI: https://doi.org/10.1038/nrneph.2016.113

Sarnak MJ, Levey AS. Cardiovascular disease and chronic renal disease. Am J Kidney Dis. 2000;35(4 Suppl 1):S117-S131. DOI: https://doi.org/10.1016/S0272-6386(00)70239-3

Nerbass FB, Lima HN, Lugon JR. Disparidades regionais no acesso à hemodiálise no Brasil. J Bras Nefrol. 2020;42(3):301-310.

Bagshaw SM, Wald R, Adhikari NKJ, Bellomo R, da Costa BR, Dreyfuss D, et al. Timing of initiation of renal-replacement therapy in acute kidney injury. N Engl J Med. 2020 Jul 16;383(3):240-251. DOI: https://doi.org/10.1056/NEJMoa2000741

Allon M. Dialysis catheter-related bacteremia. Am J Kidney Dis. 2004;44(5):779-791. DOI: https://doi.org/10.1016/S0272-6386(04)01078-9

Ministério da Saúde (BR). Boletim Epidemiológico: Doença Renal Crônica. Brasília; 2024.

Paim LS, Xavier CE de OS, Nader DBB, Alves JVN, Andrade MO de, Alves VAP, et al. A importância do diagnóstico precoce da doença renal crônica na atenção primária à saúde. REAMed [Internet]. 10maio2023 [citado 16dez.2025];23(5):e12835.Disponível em: https://doi.org/10.25248/REAMed.e12835.2023. DOI: https://doi.org/10.25248/reamed.e12835.2023

Silva AR, Lopes CLR, Menezes MO. Tempo de permanência em UTI como preditor de mortalidade em pacientes críticos renais. Rev Bras Ter Intensiva. 2023;35(2):155-62. doi: 10.1016/j.aucc.2023.06.011. DOI: https://doi.org/10.1016/j.aucc.2023.06.011

Oliveira CM, Soares VM, Gonçalves RCB, Sesso RC, Lugon JR, Kirsztajn GM. Doença renal crônica: perfil epidemiológico no Brasil e sua relação com a assistência nefrológica. Rev Bras Epidemiol. 2019;22(Suppl 1):e190010. doi: 10.1590/1980-549720190010.supl.2. DOI: https://doi.org/10.1590/1980-549720190010.supl.2

Sesso RC, Fernandes NMS, Reis SRA. Diferenças de gênero na doença renal crônica: prevalência, progressão e acesso ao tratamento. J Bras Nefrol. 2021;43(1):1-8. doi: 10.1590/2175-8239-JBN-2020-0144. DOI: https://doi.org/10.1590/2175-8239-jbn-2020-0144

Cruz MC, Sesso RC, Fernandes NM, Reis SRA. Acesso à terapia renal substitutiva no Brasil: uma análise das desigualdades regionais. J Bras Nefrol. 2023;45(2):e20220169. doi: 10.1590/2175-8239-JBN-2022-0169pt. DOI: https://doi.org/10.1590/2175-8239-jbn-2022-0169pt

Barbosa BRP, Almeida APS, Barreto FML, Pereira MLD. Deslocamento para tratamento de saúde: uma análise das iniquidades regionais no Brasil. Ciênc Saúde Coletiva. 2022;27(5):1801-12. doi: 10.1590/1413-81232022275.24492021.

Associação Brasileira de Centros de Diálise e Transplante (ABCDT). Desigualdade na Nefrologia: região Norte concentra 26 vezes menos especialistas [Internet]. 2023 [citado 2025 Dez 16]. Disponível em: https://abcdt.org.br/desigualdade-na-nefrologia-regiao-norte-concentra-26-vezes-menos-especialistas/

Costa JV, Ferreira TPS, Santos TR. Acesso aos serviços de saúde em municípios de grande extensão territorial: desafios para a atenção nefrológica. Rev Pesq Polít Públ. 2024;8:e930. doi: 10.34119/bjhrv7n9-070. DOI: https://doi.org/10.34119/bjhrv7n9-070

Pota V, Bell M. Global Epidemiology and Outcomes of Acute Kidney Injury. In: Cotoia A, De Rosa S, Ferrari F, Pota V, Umbrello M, editors. Nutrition, Metabolism and Kidney Support. Cham: Springer; 2024. p. 285-99. doi: 10.1007/978-3-031-66541-7_26. DOI: https://doi.org/10.1007/978-3-031-66541-7_26

Mendes KDS, Silveira RCCP, Galvão CM. Atraso no transporte e desfechos clínicos desfavoráveis em pacientes críticos: revisão integrativa. Rev Esc Enferm USP. 2023;57:e20220109. doi: 10.1590/1980-220X-REEUSP-2022-0109pt. DOI: https://doi.org/10.1590/1980-220x-reeusp-2022-0109pt

Gaudry S, Hajage D, Benichou N, Chaïbi K, Barbar S, Zarbock A, et al. Delayed versus early initiation of renal replacement therapy for severe acute kidney injury: a systematic review and individual patient data meta-analysis of randomised clinical trials. Lancet. 2020;395(10235):1506-15. doi: 10.1016/S0140-6736(20)30531-6. DOI: https://doi.org/10.1016/S0140-6736(20)30531-6

Bachetti T, Feltracco P, Serra E, Barbieri S, Furnari M, Bordignon G, et al. Early nephrology referral and rapid initiation of dialysis: improving outcomes in acute kidney injury management. J Nephrol. 2025;38(2):345-57. doi: 10.1007/s40620-024-02030-6. DOI: https://doi.org/10.1007/s40620-024-02030-6

Downloads

Publicado

2026-07-09

Edição

Seção

Ciências da Saúde

Categorias

Como Citar

NUNES, Tamis Coelho; DAL BEM, Pamella; FRANCO, Gilberto Paulo Pereira; BOTOF, Millena Abe; DE AMORIM, Manoella Almeida; DO AMARAL, José Geraldo; DO AMARAL, Patrícia Henicka; ALVES, Carlos José; AMARAL, Renan Name. Perfil epidemiológico e desfecho clínico de pacientes submetidos a tratamento dialítico em unidade de terapia intensiva no Mato Grosso. Revista Sociedade Científica, [S. l.], v. 9, n. 1, p. 1915–1937, 2026. DOI: 10.61411/rsc2026129819. Disponível em: https://journal.scientificsociety.net/index.php/sobre/article/view/1298.. Acesso em: 10 jul. 2026.

Artigos mais lidos pelo mesmo(s) autor(es)